quarta-feira, 16 de março de 2011

Campos Elíseos teme revitalização da Luz

Fonte: Radar imobiliário (Estadão)

Na mitologia grega, Campos Elísios é sinônimo de paraíso. No Brasil, é uma expressão que remete à famosa avenida parisiense (Champs Elysées) por seu luxo e sofisticação. Não é à toa que o nome foi escolhido para batizar o primeiro bairro nobre da capital, que no início do século 20 foi morada dos barões do café. Mas esse cenário mudou. Atualmente, está difícil comparar o local ao paraíso.

Se por um lado Campos Elísios está na região central, uma das melhores em infraestrutura da cidade, com ruas planas, ampla oferta de transporte público, comércio e serviços, por outro, abriga a cracolândia, uma favela – a Moinho, às margens dos trilhos do trem que leva à estação Júlio Prestes – e diversos moradores de rua, problemas decorrentes da degradação da região central de São Paulo.

No entanto, nos próximos anos, o bairro deve ser afetado pelo Projeto Nova Luz, uma iniciativa da Prefeitura para revitalizar o entorno da estação da Luz e a área entre as avenidas Ipiranga, Duque de Caxias e Rua Cásper Líbero. O projeto no bairro vizinho prevê um novo desenho urbanístico na região, com lançamento de residências, recuperação de imóveis antigos e aumento do número de moradores.

No entanto, a promessa de recuperação desagrada a quem mora em Campos Elísios. A Associação dos Moradores e Comerciantes do bairro (AMCCE) reclama da falta de políticas públicas para dar apoio aos moradores de ruas, que estariam sendo “empurrados” da Luz para outros bairros de Santa Cecília.

“Há uns quatro anos, quando começaram a ser feitas operações na cracolândia, muitos moradores de rua vieram para cá, o que fez muitas pessoas se mudarem daqui”, diz o vice-presidente da AMCCE, Nelson Barbosa.

Outra preocupação dos moradores é com a Lei nº 14.917 que dispõe sobre a concessão urbanística no município de São Paulo. A Associação teme que a exploração de terrenos pelo mercado imobiliário descaracterize o bairro, eleve os preços e acabe afastando antigos moradores.

“Moro aqui há 30 anos, e a gente não quer ver imóveis históricos serem derrubados. Se ainda construíssem apartamentos de até dez andares, que se integrassem à região, não seria tão ruim. Mas normalmente constroem espigões, que destoam da paisagem e trazem problemas como excesso de moradores e trânsito”, diz a presidente da AMCCE, Dinah Piotrowski.

Transformação

O arquiteto e diretor da Escola da Cidade, Ciro Pirondi, diz que a especulação imobiliária é um movimento natural para a reestruturação da cidade. No entanto, ressalta que no Centro há estoque de metros quadrados que poderiam ser transformados em habitação, além de imóveis antigos abandonados, que podem ser reformados para uso residencial. “Revitalizar é dar vida e isso se faz com moradia”, diz. “Em um lugar como Campos Elísios, com arquitetura de alto nível, essa reestruturação precisa ser mais delicada.“

Ele ressalta ainda que o bairro é um dos poucos com vista para as montanhas da serra e com calçadas largas para os pedestres. “Seria interessante um projeto que valorizasse as virtudes do bairro, limitando a altura dos prédios para não perder essa vista e investindo mais no pedestre do que nos carros.“

Para o mercado imobiliário, investir no Centro é um bom negócio. A escassez de lançamentos e o alto índice de ocupação dos imóveis resulta em velocidade recorde de vendas toda vez que um empreendimento é lançado. Foi o que aconteceu com um conjunto de prédios na Rua Major Sertório, em agosto de 2009, que foi totalmente vendido em um único fim de semana. O Edifício Cult, um dos mais recentes de Campos Elísios, na Rua Adolfo Gordo, também foi totalmente vendido. Na internet há até anúncios de interessados em comprar uma unidade no local.